Transplante de Pâncreas

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Dr. Marcelo Perosa: Transplante Duplo Pâncreas/Rim com Doador Vivo Renal

Data de Publicação: 25/09/2011

Fonte: Portal Diabetes   

Nesta entrevista o Dr. Marcelo Perosa (SP) explica tudo sobre o transplante duplo pâncreas-rim com doador vivo de rim. Uma das doenças mais comuns para o desenvolvimento de insuficiência renal é o diabetes. Os doentes mais graves podem precisar de dois órgãos: rim e pâncreas.

Tradicionalmente, esses pacientes ficavam à espera de um doador capaz de fornecer os dois órgãos ao mesmo tempo ou tinham de ser submetidos a duas cirurgias - uma para receber o pâncreas e a outra, o rim.

A partir de 2001, para otimizar os transplantes, os médicos começaram a realizar, numa única cirurgia, o transplante de pâncreas (de um doador morto) e de rim (de um doador vivo). A medida chega a reduzir para um sexto o tempo de espera pelo transplante duplo, que hoje é de três anos, em média

"Com isso antecipamos a cirurgia em cerca de dois anos e meio", diz o médico Marcelo Perosa, diretor da Hepato (Hospital Albert Einstein, Beneficiência Portuguesa e Oswaldo Cruz em São Paulo), uma das maiores equipes brasileiras de transplante de órgãos do aparelho digestivo

Portal Diabetes: No que consiste este tipo de transplante?

Dr. Marcelo Perosa: Esta modalidade de transplante, como o próprio nome diz, consiste em se oferecer dois órgãos provenientes de doadores diferentes, ou seja, o pâncreas de um doador cadáver e o rim de um doador vivo, geralmente parente.

 
Portal Diabetes: Quais pacientes podem se beneficiar desta cirurgia?
 

Dr. Marcelo Perosa: Os pacientes que necessitem de transplante duplo de pâncreas/rim podem agora ser contemplados pelo TX duplo convencional (os dois órgãos do mesmo doador cadáver) ou fazer o TX duplo com doadores diferentes. Estes pacientes são os portadores de DM tipo 1 de longa data, com insuficiência renal, já em diálise ou na iminência de diálise. Os pacientes que mais podem se beneficiar do TX duplo de doadores diferentes são aqueles que já se encontram na fila de espera para um TX duplo de cadáver, muitas vezes no final da fila, com tempo de espera superior a 2 anos, mas que tenham potencial doador para rim na família que não estava sendo considerado. Nestes, desde que o familiar seja devidamente estudado e se confirme como doador de rim, pode-se transferir o paciente agora a uma fila de espera apenas de pâncreas que habitualmente é mais curta, com previsão de espera de aproximadamente 6 meses.

 
Portal Diabetes: Quais são as vantagens deste tipo de transplante em relação ao convencional?
 

Dr. Marcelo Perosa: As vantagens do TX duplo de doadores diferentes (na verdade, o nome adequado é Transplante Simultâneo de Pâncreas de Doador Cadavérico e Rim de Doador Vivo) são:

  • Redução do tempo de espera na fila de transplante de cerca de um sexto;
  • Aproveitar o benefício do doador de rim vivo aparentado, cujo resultado é sempre superior ao doador de rim cadavérico. O TX renal de doador vivo tem melhores resultados pela melhor compatibilidade imunológica entre doador/receptor (geralmente o doador renal são os pais ou irmãos ) e também por apresentar baixo tempo de isquemia (tempo que o rim fica no gelo até ser reimplantado), uma vez que o rim é retirado do doador vivo em sala paralela à cirurgia do receptor e somente quando está tudo pronto para receber o rim. Portanto, este rim fica apenas cerca de 15 a 20 min no gelo enquanto o rim de cadáver fica geralmente de 12 a 24 horas. É óbvio que quanto maior o tempo sem circulação no rim, mais ele sofre;
  • Aliviar o sistema de captação renal de doador cadavérico, já que aqueles que dispuserem de doador vivo renal não irão competir por um rim de cadáver na fila da Central de Transplante.
 
Portal Diabetes: Comparando-se com a doação de cadáver, qual a taxa de sucesso deste tipo de TX a longo prazo?
 

Dr. Marcelo Perosa: O grande receio que existia até a pouco sobre o TX pâncreas/rim de doadores diferentes é que estaríamos implantando órgãos de procedência e pessoas diferentes. Portanto a carga de antígenos oferecidos seria bem maior e teoricamente uma propensão maior a reações (rejeições) por parte do receptor. Todavia, o que se tem visto é que o TX duplo com doadores diferentes tem, no mínimo, o mesmo índice de sucesso do que o TX duplo de doador cadáver, ou seja, 85 a 90% de sucesso em 1 ano e 70 a 80% em 5 anos. Os trabalhos ainda são muito recentes para fornecerem resultados a longo prazo, mas os resultados iniciais de 1 e 3 anos têm se mostrado semelhantes ao TX duplo convencional. Daí depreende-se que, se com o TX duplo de doadores diferentes não incorrermos em piora do resultado do TX duplo convencional, o benefício é muito grande, pois estaremos oferecendo um Transplante duplo com os mesmos índices de sucesso, porém em prazo bem mais curto e com doador familiar para rim.

 
Portal Diabetes: Qual é o papel dos imunossupressores no sucesso dos TX duplos com doadores diferentes?
 

Dr. Marcelo Perosa: O papel dos imunossupressores foi fundamental para o início destes protocolos de TX duplos com doadores diferentes. Nós sabemos que classicamente o TX duplo de pâncreas/rim tem resultado superior aos TX isolados de pâncreas pelo fato do rim funcionar como marcador da rejeição do pâncreas e, desta forma, protegê-lo. Habitualmente, enquanto o TX duplo convencional oferece sucesso de 85-90%, os TX de pâncreas isolados propiciam sucesso de 70-75%. Com o advento de novos imunossupressores, entre eles, o tacrolimus, micofenolato mofetil, rapamicina e anti-linfocíticos, o sucesso dos TX isolados de pâncreas estão tendendo a ser praticamente o mesmo do TX duplo, pois a incidência de rejeição vem caindo muito. Há 5 anos, esperava-se taxa de rejeição de 80% após TX de pâncreas. Hoje, está na ordem de 20%.

No TX duplo de doadores diferentes, o pâncreas vem de outro doador e nada tem a ver, em questão imunológica, com o rim recebido. Portanto, é possível ocorrer rejeição do rim sem a do pâncreas e vice-versa, ao contrário do que ocorre no TX duplo convencional, onde a vasta maioria dos eventos de rejeição comprometem igualmente o pâncreas e o rim. Assim sendo, nos TX duplos de doadores diferentes, o pâncreas comporta-se como um TX de pâncreas isolado e o rim não serve como marcador de rejeição para o pâncreas. Portanto, este sucesso só foi possível após melhora dos resultados dos TX isolados.

 

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